Se você, torcedor rubro-negro, sentiu um nó no estômago durante o primeiro tempo na Arena da Baixada, saiba que não estava sozinho. O próprio Leonardo Jardim sentiu o golpe. Historicamente, jogar em Curitiba é encarar um dos cenários mais hostis do futebol brasileiro. Os números não mentem: em 30 confrontos naquele estádio, o Flamengo soma apenas cinco vitórias contra 16 derrotas. Diante desse retrospecto, o empate por 1 a 1 no último dia 17 de maio poderia ser visto apenas como "mais um ponto", mas a coletiva do técnico revelou muito mais. O que vimos foi um Flamengo de "duas faces", que precisou de um choque de realidade no vestiário para não sair de campo derrotado.
O Caso Rossi: Entre a Falha e a Redenção
O goleiro Rossi foi, sem dúvida, o personagem mais ambivalente da noite. Protagonista de uma falha técnica no gol do Athletico, o arqueiro vive um momento de questionamentos após dois jogos com intervenções infelizes. No entanto, Jardim foi blindar seu jogador com a autoridade de quem conhece o peso da camisa. Para o técnico, a confiança é inabalável, sustentada pelo nível consolidado de quem foi peça-chave na última Libertadores.
Análise de Desempenho: Rossi
O Erro / Fragilidade | A Reação / Fator de Redenção |
Falha técnica direta no lance do gol atleticano. | Realizou 4 defesas cruciais que mantiveram o time no jogo. |
Insegurança na distribuição e saídas de bola sob pressão. | Recuperação emocional rápida e sorte na bola na trave (lance que seria anulado por impedimento via VAR). |
Jardim tratou os erros como "momentos isolados". O comandante destacou que a dedicação diária de Rossi é o que garante sua permanência, enfatizando que o apoio do grupo é total para que ele retome a forma que o consagrou.
As Duas Faces do Flamengo: A Mudança de Postura
A discrepância de rendimento entre os dois tempos foi o ponto de maior irritação da comissão técnica. No primeiro tempo, o Flamengo foi uma equipe "vazia", aceitando passivamente o domínio paranaense.
A Apatia Inicial
Jardim foi categórico ao diagnosticar a falta de agressividade. Ele rejeitou veementemente a desculpa dos sete desfalques como licença para o desânimo. Para o técnico, a ausência de titulares não justifica a "passividade". O Flamengo entrou em campo permitindo que o adversário ditasse o ritmo, algo inaceitável para a filosofia de domínio que Jardim tenta implementar.
A Reação Tática e o Impacto das Substituições
No intervalo, a conversa subiu de tom. A ordem foi clara: Pressão Alta. O objetivo era sufocar a saída de bola do Athletico para impedir a Transição ofensiva deles. Um ponto crucial foi a leitura sobre Samuel Lino. Jardim explicou que o jogador apresentava um desgaste natural e, por isso, promoveu a entrada de Bruno Henrique.
A mudança foi cirúrgica. Ao contrário de Lino, que estava mais por dentro, Bruno Henrique trouxe "agressividade ofensiva" e amplitude (o famoso "alargar o campo"). Foi dos pés dele que saiu o cruzamento preciso para o gol de Pedro. Essa mudança de postura forçou o Athletico a recuar, neutralizando o atacante Vives, que vinha vencendo todos os Duelos Físicos no primeiro tempo por ter campo aberto para correr.
O "Quebra-Cabeça" dos Desfalques e a Estratégia De La Cruz
Gerir um elenco sem Arrascaeta, Jorginho e Eric mexe com o que Jardim chama de "manobra da equipe". Sem esse trio, a fluidez do meio-campo desaparece, e o time perde a capacidade de articular jogadas curtas.
Muitos torcedores questionaram a ausência de De La Cruz. O técnico, porém, deu uma aula tática na coletiva. Ele explicou que, contra times como o Athletico e o Vitória, que abusam dos lançamentos diretos do goleiro, o jogo se torna uma batalha de "primeira e segunda bola" (a disputa aérea e a sobra). De La Cruz é um jogador técnico, que precisa da bola no pé para construir. Em um jogo de "bate-rebate" e contato físico extremo, Jardim preferiu não "sacrificá-lo", especialmente considerando o estado do campo.
As críticas de Jardim ao gramado sintético:
- Classificou o estado atual como no "limite da utilização".
- Comparou a superfície a um "carpete de casa", criticando a falta de condições para o futebol profissional.
- Afirmou que o piso prejudica o espetáculo e potencializa lesões de impacto.
A Sombra da Seleção e a Ansiedade da Copa
A presença de Carlo Ancelotti nas tribunas trouxe um componente psicológico extra. Quando um repórter mencionou "quatro nomes" do Flamengo na pré-lista da Seleção Brasileira, Jardim prontamente o corrigiu: "Não, vamos corrigir, são sete". Esse momento mostrou o orgulho e a proteção do técnico para com seu grupo.
Com base em sua experiência no Mônaco e nos Emirados Árabes, Jardim discursou sobre a "ansiedade da Copa". Ele explicou o fenômeno do "não meter o pé": o receio inconsciente de se machucar às vésperas de uma convocação. No entanto, ele combate essa ideia com uma teoria interessante: o jogador que entra hesitante em uma dividida tem mais chances de se lesionar do que aquele que entra com firmeza. "Quem não mete o pé fica mais receptivo à lesão", afirmou, tentando manter o foco dos seus atletas no agora.
Alerta Vermelho: A Violência e o Patrimônio em Risco
Um dos momentos mais tensos da coletiva foi a denúncia de Jardim sobre a violência permitida pela arbitragem. O técnico fez uma distinção fundamental: o Flamengo não sofre com lesões musculares — fruto de um excelente trabalho de fisiologia — mas está sendo castigado por traumatismos.
Ele citou nomes específicos: Plata (pancada no joelho), Carrascal (vítima de uma entrada de "tesoura") e as marcas visíveis em Paquetá e Alex. Jardim criticou a passividade dos árbitros que fazem "vista grossa" para a agressividade acima do limite da lei. Para ele, se o futebol brasileiro quer "qualidade de jogo", precisa proteger o patrimônio dos clubes, que são os seus talentos técnicos.
Conclusão: O Caminho para a Liderança
Apesar do gosto amargo pelo primeiro tempo apático, o saldo da viagem a Curitiba é de resiliência. Somar um ponto com sete desfalques, sob o olhar atento de olheiros internacionais e em um "carpete" traiçoeiro, mantém o Flamengo vivo na briga.
Agora, o foco é o Maracanã. Com os prováveis retornos de jogadores como Jorginho e a recuperação de Plata, o desafio contra o Estudiantes (Libertadores) e o clássico contra o Palmeiras (Brasileirão) exigirão que a face "agressiva" do segundo tempo seja a regra, e não a exceção. O caminho para a glória passa por recuperar a Qualidade do Jogo e garantir que o Flamengo mande nas partidas desde o primeiro minuto.