domingo, 7 de junho de 2026

Peru em Encruzilhada: 9 Presidentes em 10 Anos e o Futuro nas Urnas de 2026

 

O Peru está prestes a alcançar uma marca que nenhum país democrático deseja: a posse de seu nono presidente em apenas uma década. O que muitos chamam de "maldição presidencial" peruana não é um fenômeno sobrenatural, mas o resultado de uma falência institucional profunda. Neste domingo, 7 de junho de 2026, os peruanos retornam às urnas para um segundo turno decisivo — após uma primeira etapa fragmentada em 12 de abril — entre a conservadora Keiko Fujimori e o esquerdista Roberto Sánchez. O objetivo deste post é desvendar como essa instabilidade crônica corrói a vida real dos cidadãos e por que o pleito atual é uma luta pela própria sobrevivência institucional do país.

A Engrenagem do Colapso: Por que o Peru troca tanto de Presidente?

A rotatividade frenética no Palácio de Governo não é fruto do acaso, mas de uma ferramenta técnica contida na Constituição de 1993: o Artigo 113. Este dispositivo permite que o Congresso declare a vacância da presidência por "incapacidade moral permanente". Por ser um conceito juridicamente vago, ele deixou de ser um recurso extremo para se tornar uma arma política ordinária.

O cenário agravou-se em fevereiro de 2023, quando o Tribunal Constitucional removeu o poder do Judiciário de intervir nos atos do Legislativo, consolidando o que analistas chamam de uma "autocracia parlamentar". O Congresso hoje detém o poder de fato, destituindo líderes sem maioria parlamentar com uma facilidade alarmante. O resultado é uma lista de mandatos interrompidos que paralisam o Estado:

  • Pedro Pablo Kuczynski (2016–2018): Renunciou para evitar o impeachment devido a ligações com o escândalo Odebrecht; hoje enfrenta restrições de viagem e processos judiciais.
  • Martín Vizcarra (2018–2020): Destituído por "incapacidade moral" após denúncias de propinas em Moquegua; foi condenado em 2025 a 14 anos de prisão.
  • Manuel Merino (2020): O mandato mais curto da história moderna, durando apenas cinco dias antes de renunciar sob protestos que deixaram dois estudantes mortos.
  • Francisco Sagasti (2020–2021): Líder centrista que conduziu o país em uma transição pacífica até as eleições gerais.
  • Pedro Castillo (2021–2022): Destituído e preso após tentar um "autogolpe" para fechar o Congresso; em 2025, foi condenado a mais de 11 anos de prisão.
  • Dina Boluarte (2022–2025): Primeira mulher na presidência, foi destituída pelo Congresso após o escândalo "Rolexgate" e acusações de violação de licenças de saúde.
  • José Jerí (2025–2026): Ex-presidente do Congresso, durou apenas quatro meses antes de cair por tráfico de influência em reuniões secretas com empresários chineses em restaurantes.
  • José María Balcázar (2026–Presente): Atual presidente interino de 83 anos, ex-juiz com um histórico controverso, encarregado de entregar o cargo em 28 de julho.

Para o cidadão, essa troca constante impede que políticas de segurança e saúde amadureçam. No Peru, a governança tornou-se uma improvisação perigosa.

O Embate de 2026: Keiko Fujimori vs. Roberto Sánchez

O segundo turno de 2026 é uma repetição polarizada do abismo ideológico que divide o país. De um lado, a herdeira de um legado autoritário; do outro, a face atual do populismo andino.

Keiko Fujimori e o "Peru com Ordem"

Em sua quarta tentativa de chegar ao poder, Keiko (Fuerza Popular) foca no resgate da "mano dura" (punho de ferro). Sua plataforma prioriza a tecnologia, propondo o sistema C5i com Inteligência Artificial preditiva para mapear o crime e a construção de quatro megapresídios. Com uma meta agressiva, ela promete modernizar 200 comissariados e entregar 1.000 novas patrulhas nos primeiros 100 dias de governo. Na economia, defende a ortodoxia fiscal e a "Licença 0" para desburocratizar a abertura de microempresas.

Roberto Sánchez e a Herança de Castillo

Roberto Sánchez (Juntos por el Perú) é o herdeiro político de Pedro Castillo, utilizando inclusive o tradicional chapéu "chota" para sinalizar sua ligação com as áreas rurais. Ele defende uma Assembleia Constituinte para enterrar a Constituição de 1993 e a criação de um Banco Mineiro Estatal para integrar pequenos mineradores. Recentemente, Sánchez moderou seu discurso econômico para acalmar mercados, mas mantém propostas de forte intervenção, como a soberania sobre o gás de Camisea e o aumento do investimento em educação para 10% do PIB (atualmente abaixo de 4%).

Eixo

Keiko Fujimori (Fuerza Popular)

Roberto Sánchez (Juntos por el Perú)

Segurança

IA preditiva, megapresídios e 1.000 novas patrulhas em 100 dias.

Reforma da polícia, depuração de cúpulas e uso de ronderos.

Economia

Ortodoxia, "Licença 0" e redução do déficit fiscal.

Imposto sobre sobreganhos mineiros, Banco Mineiro e soberania do gás.

Visão de Estado

Manutenção da Constituição de 1993 e fortalecimento do bicameralismo.

Nova Constituição via Assembleia e reconhecimento do Estado Plurinacional.

O Paradoxo Peruano: Moeda Forte vs. Ruas Inseguras

O Peru vive uma dicotomia brutal. Graças à autonomia técnica do Banco Central (BCRP), a moeda "Sol" é uma das mais fortes da região, com reservas internacionais que somam 27% do PIB. No entanto, essa solidez macroeconômica não se traduz em segurança para os cidadãos.

Considere o caso de Luis, um motorista de combi em Lima. Todos os dias, às 5h da manhã, Luis não calcula apenas o custo do combustível. Ele separa, com precisão matemática, o dinheiro para os "cupos" (extorsões). Luis paga gangues criminosas para não ser baleado e policiais corruptos para garantir que o assédio seja "previsível". A realidade de Luis é a de um país onde a criminalidade mata 6 peruanos por dia em 2026, contra 3 por dia em 2021. Enquanto a mineração ilegal de ouro movimenta US$ 4,8 bilhões anuais (44% das exportações totais de ouro do país) financiando o crime, a filha de Luis cursa a faculdade — o que ele descreve como um "ato de fé" em um país que parece ter desistido de si mesmo.

O Novo Tabuleiro: Bicameralismo e Geopolítica

A partir de 2026, o Peru retorna ao sistema bicameral (Senado e Deputados), uma mudança que inclui o retorno do direito à reeleição parlamentar. Espera-se que o Senado atue como um "filtro" técnico para frear a impulsividade dos processos de vacância, trazendo a maturidade que faltou na última década.

Geopoliticamente, o Peru é hoje um campo de batalha. A China consolidou um monopólio de fato na distribuição elétrica de Lima e controla o Porto de Chancay, que obteve o status de "porto privado para uso público", limitando a soberania regulatória do Estado peruano. Em resposta, os EUA intensificaram a "Doutrina Monroe 2.0" após a captura de Nicolás Maduro em 3 de janeiro de 2026. Keiko Fujimori sinaliza um alinhamento total com Washington, enquanto Sánchez busca o apoio do eixo progressista de Brasil e México.

Conclusão: O que esperar após 28 de Julho?

O voto de 7 de junho definirá a sobrevivência das instituições peruanas. Os analistas projetam dois cenários:

  • Cenário A (Vitória de Keiko): Estabilidade inicial nos mercados e apoio de um Congresso majoritariamente conservador, mas com risco elevado de convulsão social nas regiões andinas e críticas sobre o autoritarismo e a politização do Judiciário.
  • Cenário B (Vitória de Sánchez): Risco imediato de paralisia institucional. Sem maioria no Congresso e sob o olhar vigilante de uma oposição que já derrubou oito presidentes, Sánchez pode enfrentar um novo processo de "incapacidade moral" meses após a posse.

A lição educativa que o Peru deixa para o mundo é clara: uma economia sólida e uma moeda forte não bastam para sustentar uma nação se as suas instituições políticas forem de vidro. O próximo presidente terá o dever hercúleo de provar que a democracia peruana é capaz de proteger o cidadão comum com a mesma eficiência com que protege os cofres do Banco Central.

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